Entrevista publicada em 05/08/2020 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“O trabalho híbrido ganhará mais espaço”
David Braga – CEO, Board Advisor e headhunter da Prime Talent

David Braga

David Braga é CEO, Board Advisor e headhunter da Prime Talent, empresa de busca e seleção de executivos de média e alta gestão, que atua em todos os setores da economia na América Latina, com escritórios em São Paulo e Belo Horizonte. Ao longo de sua carreira, avaliou mais de 10 mil executivos de alta gestão, selecionando para clientes Latam. David é colunista da BandNews FM, tem formação de Conselheiro de Administração pela Fundação Dom Cabral (FDC), possui certificação de Executive Coach pela International Association of Coaching e é practitioner em Micro Expressões e Programação Neurolinguística. Tem vivência internacional em Trinidad and Tobago, Londres, África e Estados Unidos. “Eles podem ser a oportunidade para uma nova posição em uma nova empresa. Em meio à multidão, é preciso se destacar e atrair a atenção dos headhunters. Sendo assim, é muito importante ter um bom relacionamento com o mercado ou o famoso networking. Para isso, é preciso se atualizar e ser visto constantemente. Existem várias maneiras de buscar essa visibilidade, como, por exemplo, participar ativamente de congressos e eventos do setor em que trabalha. Tornar-se referência em determinados assuntos também é interessante, pois, as pessoas começarão a se lembrar de você e a recomendá-lo. Ser relevante é a palavra de ordem sempre”, afirma o headhunter.

 

O que mudará no sistema de trabalho no pós-Covid-19?

Sabemos que os impactos pós-Covid-19 ainda são incalculáveis. Todavia, o Brasil já estava, desde 2015, em uma crise latente, então teremos reflexos ainda maiores, exigindo das lideranças competências e habilidades diferenciadas. A crise da saúde em que, globalmente, estamos inseridos, mostrou, de forma clara, que as empresas que possuem uma cultura de poder e controle foram as mais impactadas no início e durante a pandemia. Por terem uma gestão mais centralizada, não apresentaram um ambiente propício para novas ideias criativas e ousadas. Já as empresas com boas práticas de talent management (gestão de pessoas) e, ao mesmo tempo, mais digitalizadas conseguiram migrar, na totalidade, seus funcionários para o modelo de atuação home office, por exemplo, e mantêm a mesma entrega de resultados. Aquelas empresas que sobreviverem a essa crise certamente terão uma mudança de mindset, com mais foco em performance do que em controle de horas trabalhadas.

O trabalho híbrido ganhará cada vez mais espaço, ou seja, já não será mais tão importante colocar todos os colaboradores no mesmo ambiente da empresa. Isso impulsionará o home office ou demais espaços de trabalho compartilhados, por exemplo. Da mesma forma, a aplicação da tecnologia, reuniões por vídeo, redução de gastos com viagens tendem a ficar cada vez mais presentes no ambiente empresarial. A palavra disrupção, que era um jargão corporativo usado nas organizações, nunca esteve tão em evidência, na prática. Os negócios estão sendo questionados, e-commerce e delivery despontaram, e novas formas de consumo já estão surgindo. Além disso, competências e habilidades serão cada vez mais exigidas não apenas dos líderes, mas também dos liderados, em um novo mundo pós-Covid.

 

O que esses trabalhadores poderão fazer para não ficarem desatualizados?

Mais do que nunca, o digital ganhou espaço dentro das empresas e na vida pessoal. E, uma vez que o Brasil é a 4ª maior população online do planeta (67% da população têm smartphone), segundo a Pesquisa Google – Índice de Maturidade Digital – Digital Skills Index de 2019, buscar informação e se atualizar não é algo complexo nem precisa ser oneroso. Mesmo durante a pandemia, várias foram as instituições acadêmicas ao redor do mundo, por exemplo, que disponibilizaram seu conteúdo online, sem nada cobrar por isso. Ler é essencial para ter senso crítico, sobretudo embasamento para a construção de argumentos em todos os âmbitos da vida. Se atualizar se faz necessário àqueles que querem se destacar cada vez mais no ambiente corporativo.

 

Como chamar a atenção de um headhunter no meio dessa turbulência?

Um headhunter – ou caça talentos, como são popularmente conhecidos – está, diariamente, em busca de profissionais que estão trabalhando ou mesmo desempregados. Eles podem ser a oportunidade para uma nova posição em uma nova empresa. Em meio à multidão, é preciso se destacar e atrair a atenção dos headhunters. Sendo assim, é muito importante ter um bom relacionamento com o mercado ou o famoso networking. Para isso, é preciso se atualizar e ser visto constantemente. Existem várias maneiras de buscar essa visibilidade, como, por exemplo, participar ativamente de congressos e eventos do setor em que trabalha. Tornar-se referência em determinados assuntos também é interessante, pois, as pessoas começarão a se lembrar de você e a recomendá-lo. Ser relevante é a palavra de ordem sempre.

Outra dica importante é que, no primeiro contato com um headhunter, o profissional deve ser agradável, passar as informações necessárias e construir uma relação de confiança, mesmo que não esteja em busca de uma nova posição no mercado.

Em relação às mídias sociais, é preciso saber se posicionar. Da mesma forma que as empresas cuidam da marca corporativa, é necessário cuidar da marca pessoal/profissional. Estar na mídia social LinkedIn é de extrema importância, uma vez que ela é, hoje, uma das ferramentas online utilizadas para a busca de profissionais de diversos níveis hierárquicos, entre outras finalidades. Deixar o perfil acessível, contendo o e-mail de contato e celular, além de aceitar os convites de profissionais que atuam com contratação, é também muito importante. Afinal, se eles estão te acessando, tem algum motivo.

Por último, é preciso estar pronto, uma vez que o mercado de trabalho tem sempre demandado profissionais atualizados e conectados às melhores práticas. Para isso, é importante se capacitar constantemente, na busca dos conhecimentos gerais e específicos, seguindo a máxima da Universidade de Havard: “é preciso saber de tudo um pouco e um pouco de tudo”. Outro aspecto vital é nunca se esquecer de aperfeiçoar o idioma inglês, uma vez que este ainda é um diferencial. Segundo recente pesquisa do British Council, apenas 3% dos brasileiros dominam, com fluência, o inglês. Isso se torna crítico, quando falamos de posições que exigem essa fluência.

 

Que atributos esses candidatos devem ter para serem valorizados no mercado?

Quanto mais competências e habilidades um profissional reúne, maior é a probabilidade de ele ser mais ou menos assediado pelas empresas. Formação acadêmica, fluência em outros idiomas e cursos de extensão são sempre muito valorizados. No entanto, cada vez mais, as empresas entendem que o técnico ensina-se, enquanto que a postura já precisa chegar pronta. É por isso que as soft skills (competências e habilidades) têm sido muito valorizadas. Existem empresas globais, inclusive, que nem sequer exigem que os talentos tenham formação acadêmica.

Inúmeras são as competências e habilidades desejadas e, uma vez que ninguém é perfeito e completo, é preciso constantemente buscar melhoria naquelas que são demandadas para determinado momento ou mesmo posição exercida. Todavia, se eu pudesse elencar a competência mais importante que impulsiona qualquer profissional, do estagiário ao presidente, seria a atitude, pois, é ela que leva à ação. É importante lembrar que grandes empresas, ditas como disruptivas hoje, muitas vezes, foram concebidas com ideias simples, porém, assertivas e oriundas de todos os níveis. Por isso, ser propositivo e agente de transformação do Status quo sempre irá separar os profissionais talentosos dos medianos.

Ainda é importante lembrar que diversas são as ferramentas e metodologias para melhorar nossas competências e habilidades, entre elas mentoring, processo qualificado de coaching ou mesmo terapia. E, claro, não menos importante, é preciso, continuamente, buscar conhecimento em variadas temáticas, a fim de suportar as decisões do dia a dia, seja como líder, seja como liderado.

 

Quais setores estão contratando no momento e quais setores terão problemas na retomada?

Todos os países, empresas e colaboradores foram e estão sendo severamente afetados por conta da pandemia do coronavírus. Alguns estudos demonstram que os setores que estão em baixa, neste momento, e que, consequentemente, demoram mais na retomada são: setor imobiliário, automotivo, turismo, mercado de seguros e setor de investimentos.

Enquanto uns choram, outros vendem lenços. Mesmo em épocas de Covid-19, há setores que estão em alta agora, como entretenimento online (leitura, music streaming, live streaming, cinema em casa, gaming, etc.), saúde (atividades físicas, farmácia e outros), alimentação (cozinha, delivery e consumo de bebida alcóolica), beleza (compra de máquina de cortar cabelo para homens e de utensílios, como secador, chapinha e escova rotativa para mulheres), lavanderias. Também é um momento superaquecido para arquitetos e decoradores, uma vez que, com boa parcela da população trabalhando em home office, fica mais evidente identificar o que precisa ser alterado na estrutura de casa. Da mesma forma, vários estudos apontam como tendência de consumo cursos online, e-commerce de farmácias, web meetings, setor da saúde, apps de atividade física, logística, dentre outros.

É importante salientar que todos os setores estão sendo disruptados, questionados, e as empresas mais estratégicas e inteligentes estão, inclusive, revendo seu portfólio de produtos e serviços, para já readequá-los ao mundo novo pós-Covid.

 

Que alicerces são fundamentais para os líderes em tempos de coronavírus?

O líder precisa ser curioso, buscar proposições não usuais e fomentar esse mesmo mindset em seu time, criando um clima de cooperação e cocriação. Dessa forma, as ideias fluem com mais naturalidade e, com isso, desenvolve-se um ambiente propício para geração de novas soluções. Sabemos que ser um líder não é uma tarefa fácil, pois, é preciso orquestrar interesses diversos, lidando com pessoas, projetos e processos.

Assim, se você é um líder e envolve o time nas discussões, em comitês de variadas temáticas, já está em um bom caminho. Afinal, ninguém sabe tudo e, muitas vezes, erraremos como líderes. Ao mesmo tempo, é preciso ter capacidade para a tomada de decisão assertiva, com resiliência, persistência e boa comunicação.

Falamos tanto sobre o futuro, mas é preciso lembrar que o futuro é hoje. Um “novo normal” já está surgindo, com a mudança do comportamento dos consumidores. Portanto, é importante que cada um seja um líder, independentemente da posição em que esteja. Além disso, buscar se conhecer profundamente (autoconhecimento) e compreender quais são os principais pontos a serem melhorados para atingir os objetivos profissionais e pessoais. Somente se conhecendo, é possível compreender o seu papel na sociedade, na família e na empresa. Consequentemente, o profissional estará mais alinhado ao seu propósito de vida, podendo, de fato, construir um belo legado.
Prime Talent

Novo Normal: O Board Advisor da Prime Talent, David Braga (Foto: Carmine Furletti)

 

Liderar em tempos incertos é uma tarefa que se torna mais complexa?

O líder precisa ser aquele que dá o direcionamento, leva a motivação e engaja os colaboradores. Desta forma, é preciso agir com sabedoria nesse cenário já caótico, ocasionado pela pandemia. É necessário, mais do que nunca, que as lideranças coloquem em prática as soft skills, ou seja, as competências e habilidades para melhorarem a sua gestão, que precisa ser multigeracional, multicultural e multitecnológica.

Se, antes, as respostas vinham sempre dos líderes, hoje isso já não é algo recorrente. Em um mundo VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo), todos participam das decisões, com sugestões sobre o business, mercado, tendências e o que pode ser mudado. Assim, um ponto central que cabe ao líder é ter escuta ativa, dar voz aos seus liderados e criar um ambiente colaborativo e cocriativo, onde todos possam se expressar para, juntos, construírem empresas fortes.

 

Vamos falar um pouco sobre produtividade. Como ter mais produtividade estando em home office?

Independentemente do local de trabalho, é preciso ser eficiente e eficaz na entrega dos resultados corporativos. Afinal, somos mensurados, e toda e qualquer empresa precisa entregar produtividade para garantir a perenidade da organização.

Ao atuar no modelo home office, os profissionais serão exigidos, cada vez mais, em relação às competências como gestão do tempo, corresponsabilidade, gestão de projetos, criatividade, autoliderança e poder de comunicação. Nesse sentido, cabe a cada um entender o que e quando precisa entregar suas demandas, administrando seu timing e recursos necessários. Da mesma forma, os gestores serão cobrados ainda mais por competências e habilidades de engajamento, gestão à distância, rapport, empatia e delegação com responsabilidade.

Ambos saem ganhando, uma vez que mudamos os contextos, saindo cada vez mais de culturas de poder e controle, para uma estrutura com foco em performance e entrega de resultados, na qual cada um assume o seu protagonismo, seja como líder ou liderado.

 

Quais erros que podem afetar o trabalho em home office?

Uma vez que grande parte dos brasileiros não tinha repertório quanto a atuar no modelo home office, tais rotinas foram, ao longo das semanas, inseridas no dia a dia, empiricamente. Um erro clássico desse modelo é a fácil dispersão da atenção, uma vez que temos toda a liberdade do mundo, sem monitoramento de nossos líderes, para estar ou não trabalhando.

É preciso, da mesma forma que no modelo tradicional do velho mundo, antes da Covid-19, que os horários sejam cumpridos. Portanto, é importante estipular uma agenda de reuniões virtuais. Delimitar trabalho e pessoal também é fundamental, até porque, nesse modelo, os dois mundos coexistem mais do que antes.

Vestir-se adequadamente ao contexto ao qual você trabalha é mais um aspecto que precisa de atenção, além, claro, de seguir a nova ética corporativa das reuniões virtuais. Tem sido frequente observar pessoas desatentas, com câmeras desligadas em meio às reuniões virtuais, esquecendo-se de que isso pode denegrir a imagem profissional e afetar, inclusive, uma possível promoção.

 

A procura por executivos temporários e por projetos com tempo determinado deve crescer?

Com crise ou sem crise, a busca por talentos sempre é algo latente e árduo para as organizações. Devido a isso, as empresas contratam consultorias de executive search para promover essa busca com metodologia reconhecida, garantindo sigilo da informação, capilaridade nacional ou internacional, bem como assertividade na apresentação dos candidatos.

O interim management – ou executivos interinos – tende a crescer cada vez mais no Brasil. Não apenas impulsionado pela crise, mas também porque vários são os executivos que se aposentam compulsoriamente aos 65 anos, ainda com energia vital. Dessa forma, eles podem continuar a trabalhar com seu repertório profissional, atuando por tempo determinado e sem onerar a folha de pagamento, que é extremante cara no Brasil. Assim, as empresas podem se apropriar de profissionais sêniores de conhecimento, para impulsionar determinadas áreas de expertise do executivo interino contratado. Além disso, essa é uma inteligente maneira de potencializar a passagem de conhecimento, aliada a um excelente plano de sucessão. Isso aumenta as chances de perpetuidade da organização.

 

Em que momento o trabalhador deve dizer não para uma oportunidade de emprego em meio a uma pandemia que afeta a economia brutalmente?

Bons profissionais sempre serão abordados. Com crise ou em momentos de crescimento de mercado, os talentos são como ouro, garimpados para impulsionar os negócios, reduzir custos ou implementar expertises dentro das organizações. É sempre sábio a todos os profissionais estar aberto quando a abordagem de uma nova proposta de emprego chegar. Até porque não somos gerente, diretor ou presidente, mas, sim, estamos nesses cargos. E, por uma decisão do board, momento de mercado ou qualquer outro impacto, podemos deixar essas posições. Como diz o ditado, “quem não é visto não é lembrado”. Dessa forma, se fazer conhecido junto aos headhunters é de suma importância, seja como fonte para sugerir profissionais, quando necessário, seja como candidato em um processo seletivo.

Somente por meio do autoconhecimento, que é a busca do entendimento das competências, habilidades, potencialidades e pontos a melhorar, um profissional vai compreender se o local onde está trabalhando está conectado com seus valores, com seu propósito de vida e com aquilo que deseja deixar de legado no curto, médio e longo espaço de tempo. Se a pessoa está em um lugar em que tudo isso se conecta, não há razão para sair para uma nova empresa. É possível, sim, criar novos caminhos, com distintos desafios, mesmo atuando na mesma empresa por anos.

Por outro lado, se o profissional não se conecta ao atual ambiente corporativo e está infeliz, frustrado e com baixa produtividade, bem como fez de tudo para mudar esse contexto, um novo desafio pode ser o gás que sua carreira deseja. Atuar nesse tipo de ambiente causa Burnout (já conhecida como a síndrome do século), baixa performance, e, com certeza, adoecerá mais. Já que a vida é curta, por que não aproveitá-la da melhor forma possível?

Um vídeo do headhunter David Braga

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo do Panorama Mercantil.