Entrevista publicada em 12/12/2018 por Eder Fonseca em Negócios
 
 

“O voluntariado empresarial cresce no país”
Marcelo Nonohay – Fundador e diretor executivo da MGN Consultoria

Marcelo Nonohay

Marcelo Nonohay é fundador e diretor executivo da MGN Consultoria. Já realizou palestras e formações para mais de 15 mil executivos de empresas nacionais e multinacionais, tornando-se referência na área do voluntariado empresarial e educação. É membro titular do Conselho Nacional do Voluntariado – Programa Viva Voluntário – do Governo Federal no biênio 2018/2019. A MGN é uma empresa especializada em gestão de projetos para transformação social. Para isso, atua nas áreas de Responsabilidade Social, Voluntariado Empresarial, Educação e Diversidade, oferecendo soluções que envolvem desde a estratégia até a execução. Com abrangência nacional e latino-americana, tem desenvolvido projetos com importantes fundações, institutos e empresas. Tudo isso é realizado por uma equipe multidisciplinar e capacitada para se adequar às mais diversas temáticas e gestões. “Nossa estratégia de negócios é baseada em uma atuação diversificada. Entendemos que nossas expertises podem ser aplicadas em diversos tipos de projetos. Outros dois fundamentos da nossa diversificação é que nossas áreas de atuação devem ter um propósito com o qual as pessoas que trabalham na MGN tenham identificação. Temos muito orgulho de fazer o que fazemos. Finalmente, o mais importante é que essas áreas de atuação tenham impacto social”, afirma o fundador e diretor da consultoria.

 

Marcelo, como você avalia a área do voluntariado empresarial em nosso país?

O voluntariado empresarial cresce muito no país. Os programas corporativos que engajam colaboradores em causas sociais estão cada vez mais difundidos e já deixaram de ser uma novidade. Empresas de todos os portes e setores estimulam sua força de trabalho a dedicar seu tempo e talento em ações de interesse comunitário. Sempre chama a atenção a quantidade de institutos, fundações e áreas de sustentabilidade de empresas brasileiras que participam dos eventos internacionais de voluntariado. Os nossos programas de voluntariado empresarial são destaque e servem de benchmark para os demais países.

 

Como se deu o seu interesse por esse assunto?

Quando eu era estudante do Ensino Médio, participei como aluno de um programa de educação empreendedora da Junior Achievement. Esse programa trabalha com voluntários da área empresarial, então meu primeiro contato foi como beneficiário do trabalho de voluntários de empresas. Isso teve um impacto profundo na minha vida, pois senti na pele o quanto o voluntariado empresarial tem poder transformador. Quase 25 anos depois de ter contato com aqueles voluntários ainda os admiro profundamente e carrego vários de seus ensinamentos no meu dia a dia.

 

Existiu alguma lacuna no mercado que foi o seu “start?”.

Nas últimas três décadas, o terceiro setor como um todo passou por muitas transformações. Tivemos mudanças importantes no marco legal e vivemos uma tendência de profissionalização do setor. Além disso, as forças competitivas de mercado obrigaram as empresas a encarar o investimento social privado e a responsabilidade social como parte do seu negócio. Com isso, é natural que surjam lacunas na prestação de serviços especializados. Muita gente custa a entender que existe espaço para uma empresa como a MGN. Na realidade já temos muitos concorrentes nos segmentos de mercado onde atuamos. Concorremos com outras consultorias, com negócios sociais e com organizações sociais que prestam serviço como forma de captar recursos.

 

Essa foi a mola propulsora para o surgimento da MGN?

A MGN tem hoje 25 colaboradores. O nosso formato de trabalho foi criado a partir da compreensão de que o mercado de gestão de projetos de voluntariado empresarial, programas de educação e diversidade busca por parceiros para atingir seus objetivos. Em todas as empresas, institutos e fundações as equipes são bastante enxutas. Essas instituições buscam parceiros que possam aportar know how e capacidade de execução. Nossa estrutura foi montada para apoiar o cliente em qualquer etapa da gestão de um projeto: planejamento, design instrucional, comunicação, design gráfico, eventos, relacionamento com os territórios, gestão de dados, mobilização de stakeholders, gestão de fornecedores e financeira.

 

Quais os principais pilares da consultoria?

Nossa estratégia de negócios é baseada em uma atuação diversificada. Entendemos que nossas expertises podem ser aplicadas em diversos tipos de projetos. Outros dois fundamentos da nossa diversificação é que nossas áreas de atuação devem ter um propósito com o qual as pessoas que trabalham na MGN tenham identificação. Temos muito orgulho de fazer o que fazemos. Finalmente, o mais importante é que essas áreas de atuação tenham impacto social. É desse fundamento que decidimos definir que o nosso negócio é a Gestão de Projetos para a Transformação Social.

Atualmente, trabalhamos com Voluntariado, Educação e Diversidade. Esses três pilares apresentam suas peculiaridades, no entanto, temos várias áreas de intersecção entre eles. Pegue, por exemplo, algumas metodologias que desenvolvemos para a PwC. São módulos de voluntariado empresarial focados em temáticas de diversidade, como gênero, Direitos Humanos, pessoas com deficiência e bullying. Nesses módulos, capacitamos voluntários para visitarem escolas públicas e contribuírem para a educação de jovens em várias cidades do Brasil.

Não atuamos apenas dessa forma. Existem projetos que trabalham apenas com um desses pilares, como por exemplo o Selo de Direitos Humanos e Diversidade, que desenvolvemos para a Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo, ou quando atuamos em parceria com a equipe do Transforma Rio 2016 na gestão do programa de educação dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio. As possibilidades de aplicação são bastante amplas, tanto que hoje já estamos começando a prestar serviço para áreas de relações institucionais em um cliente.

 

As empresas brasileiras estão cientes do que é uma Responsabilidade Social real?

É muito difícil generalizar, mas o que eu posso garantir é que temos muitos profissionais bem qualificados no mercado. Essas pessoas trazem seus conhecimentos para as empresas e têm condições de realizar trabalhos muito significativos. É claro que temos empresas que ainda não estão olhando para a Responsabilidade Social ou que realizam ações mínimas “para inglês ver”. O que eu acho que limita a possibilidade de algumas empresas realizarem ações de Responsabilidade Social mais significativas é a disponibilidade de recursos. Uma vez eu li um artigo do Philip Kotler onde ele dizia que se você, como consumidor, quer que a sua marca preferida tenha Responsabilidade Social, deve fazer de tudo para que ela se torne uma marca global. Nesse nível de jogo as empresas não têm opção: precisam ser socialmente responsáveis.
O fundador da MGN

O Fundador: O diretor da MGN Consultoria, Marcelo Nonohay (Foto: Divulgação)

 

Quanto existe de marketing travestido de Responsabilidade Social em nosso país?

Antes de responder a sua pergunta, temos que fazer uma reflexão sobre o uso do termo “marketing” no contexto que você colocou. De fato, no Brasil usamos marketing como um engodo ou propaganda enganosa. É claro que existem empresas que fingem que têm responsabilidade social e usam isso para melhorar a sua imagem. Isso vale para a questão social, mas também é muito visto na área ambiental, onde encontramos empresas que acham que colocar um bicicletário para os funcionários já basta para dizer que estão fazendo algo pelo meio ambiente, mas não fazem outras melhorias nos seus impactos ambientais. Ou empresas, que na área de diversidade contratam pessoas com deficiência apenas para cumprir a cota na semana anterior a uma fiscalização e não proporcionam condições para que essas pessoas sejam promovidas na organização. Existem muitas empresas que fazem esse tipo de coisa, mas é impossível dar um número.

Agora se partirmos da definição correta de marketing, que seria a atividade, o conjunto de instituições e os processos que criam, comunicam, entregam e promovem trocas que têm valor para os consumidores, clientes, parceiros e para a sociedade em geral, entendemos que a Responsabilidade Social já está inclusa no que seria marketing de verdade. Se assim é, não há nada de errado em explorar a Responsabilidade Social da empresa no processo de entrega de valor para a sociedade.

Com isso, é preciso fazer uma distinção muito importante. Empresas que fingem ter Responsabilidade Social e usam isso para enganar clientes e a sociedade, na verdade não estão fazendo marketing. As empresas que fazem marketing de verdade não têm opção senão ter uma conduta socialmente responsável.

 

Como a diversidade se encaixa nesta conjuntura e na sua consultoria?

A diversidade começou como uma força de dentro para fora na MGN. Com o crescimento da empresa, quase sem querer, nos demos conta que éramos diversos. Começamos uma discussão interna sobre o assunto. Isso teve início como uma forma de definir nossa identidade e de promover um ambiente inovador, participativo e acolhedor. Na medida em que esse fenômeno foi acontecendo naturalmente dentro da empresa, identificamos uma tendência no mercado das empresas começarem a se preocupar com esse tipo de questão também. Com isso, entendemos que os tipos de serviços que prestamos na gestão de projetos de voluntariado e educação poderiam ser aplicados aos programas de diversidade.

 

Ainda não falamos da educação. Acredita que esse é nosso principal problema enquanto nação?

O Brasil tem muitos problemas. Muitos mesmo. Mas é possível que a maioria deles passe em algum momento pela educação. Alguns desses problemas têm origem nas lacunas da nossa educação. Outros problemas só terão solução com o trabalho de pessoas que sejam transformadas por uma boa educação.

A maioria das pessoas sabe que a educação deveria receber mais atenção, mas parece que elas não têm a real dimensão das dificuldades que os gestores escolares e professores enfrentam. Quando levamos voluntários de empresas para as escolas das periferias das grandes cidades, eles se deparam com todo esse cenário adverso. Ao mesmo tempo, eles reconhecem toda a potência dos jovens.

As pessoas deveriam participar mais da educação. Não apenas repetir por aí que esse é um grande problema. Ou sempre perderemos as pessoas que resolveriam os outros problemas do Brasil para o fato de não terem desenvolvido todo o seu potencial ou, pior ainda, para a falta de perspectivas e o abandono escolar.

 

Como a MGN tem tratado especificamente da educação em seus projetos?

Sempre que possível inserimos algum elemento de educação em nossos projetos. Entendemos que se ambicionamos transformação social, precisamos da educação. Mesmo quando os projetos não possuem um elemento de educação, procuramos realizá-los em prol da educação. Um exemplo é quando alguma empresa nos procura para fazer uma atividade de mutirão de trabalho voluntário. Muitas vezes, esse tipo de evento tem um caráter prático e não permite que sejam inseridos elementos de educação. Nesses casos, procuramos atuar em escolas e organizações sociais que trabalhem em uma perspectiva de educação integral. Locais onde sabemos que estamos contribuindo de alguma forma para a educação.

 

Em que momento você acredita que o Brasil poderá dizer que se transformou socialmente de fato?

O Brasil terá uma transformação social efetiva quando as pessoas praticarem sua participação social com naturalidade e em grande volume. O Brasil terá se transformado quando as desigualdades sociais e econômicas forem drasticamente reduzidas. O Brasil terá se transformado socialmente quando a educação for prioridade dos governantes e das pessoas. O Brasil terá se transformado quando celebrar a sua diversidade acolhendo as diferenças e oferecendo oportunidades para seus cidadãos.

Um vídeo do executivo Marcelo Nonohay

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.