Entrevista publicada em 05/08/2019 por Eder Fonseca em Economia
 
 

“Vivemos para os nossos clientes”
Florian Bartunek – Sócio-fundador e CIO da Constellation Asset Management

Florian Bartunek

Florian Bartunek é sócio-fundador e CIO da Constellation Asset Management. Antes de fundar a Constellation, foi sócio e diretor executivo do Banco Pactual, onde foi chefe de research, trader proprietário, responsável pelo Asset Management e gestor dos fundos e portfólios de ações do banco. Florian iniciou sua carreira no Banco Nacional em 1989. É formado em administração de empresas pela Pontifícia Universidade Católica – PUC Rio (1990). Também participou do programa Harvard Business School-YPO de 2010 a 2016 e completou o curso de Value Investing na Columbia University (2013), o Executive Program na Singularity University (2015) e Behavioral Finance Program da Harvard Kennedy School (2016). Foi professor do curso de Value Investing no IBMEC-SP (atual Insper), presidente do Capítulo Paulista do YPO (Young Presidents Organization) e diretor internacional da ANBID. Florian é vice-presidente do Instituto ProA e participa dos conselhos da Fundação Lemann, da Fundação Estudar, da Somos Educação e da Revista Nova Escola. É conselheiro independente da BM&FBovespa S.A. “Hoje em dia quem não tem ética, ou uma empresa que não é ética, tem uma enorme desvantagem comparativa. Os consumidores querem passar longe de uma empresa sem ética. Acho que uma das grandes formas de você impregnar a ética é no próprio mercado consumidor”, afirma.

 

Você afirmou que a ética é o maior desafio do Brasil. Como obter êxito nesse desafio?

Acho que ética é um dos desafios do Brasil obviamente. Acho que você melhora a ética na sociedade de diversas maneiras. Uma é o próprio enforcement das regras. Infelizmente as pessoas acabam se comportando mais eticamente quando tem enforcement (não é só uma questão pró-ativa), agora acho que o exemplo faz toda diferença. Eu vejo pessoas que eventualmente não são éticas numa sociedade e quando mudam de sociedade onde os padrões éticos são mais rigorosos, o controle é um pouco mais rigoroso, acabam se tornando “éticas”. O exemplo faz muita diferença. Eu vejo pessoas que se comportam de uma maneira no Brasil, e quando vão para um país desenvolvido se comportam de maneira diferente. Então, acho que é uma questão de enforcement das regras, uma questão de cultura do país.

Quando você sente que está numa sociedade mais ética, você acabe se tornando mais ético. Acho que isso tudo começa obviamente de cima. O exemplo começa de cima. Quando você começa a ver as autoridades com mais ética, isso acaba descendo também para o restante da população. Tem um terceiro ponto que é interessante que é o seguinte: eu vejo que as novas gerações, são mais éticas do que eventualmente a minha geração, em geral. Os filhos acabam tendo um efeito nos pais também. Eu sou um otimista com a ética no Brasil.

 

Como avalia a ética no mercado financeiro?

A ética no mercado financeiro não deveria ser diferente como em qualquer outro segmento. Cada segmento tem suas particularidades e sua importância. O mercado financeiro lida muito com dinheiro, então é um segmento que está mais suscetível as fraudes, em geral, porque lida com dinheiro, e em muitos casos com muito dinheiro. Acho que a ética no mercado financeiro tem melhorado bastante, um pouco fruto da maior transparência que há na mídia, nas redes sociais e um pouco pela própria mudança de cultura do mercado financeiro. A cultura do mercado financeiro é bem melhor do que era há 40, 50 anos. Eu sou um otimista em relação a ética no mercado financeiro.

Hoje em dia quem não tem ética, ou uma empresa que não é ética, tem uma enorme desvantagem comparativa. Os consumidores querem passar longe de uma empresa sem ética. Acho que uma das grandes formas de você impregnar a ética é no próprio mercado consumidor. Hoje em dia uma empresa que é percebida como não ética ou que teve algum deslize ético é rapidamente punida via redes sociais ou via mídia e os consumidores rapidamente a punem. As pessoas não querem mais necessariamente ter negócios, serem clientes ou se relacionar com empresas que não são éticas. Isso é uma grande beleza que aconteceu no Brasil nos últimos anos, onde a pressão está vindo por parte do consumidor.

 

Em que posição vem a palavra ética em uma organização como a Constellation Asset Management?

Ética é a primeira coisa. Sabe aquela história, você contrata as pessoas e todo mundo têm os seus pontos fortes e pontos fracos, mas ética é inegociável. A gente na Constellation tem a seguinte regra: faça tudo como se o que você for fazer saísse na primeira página do jornal do dia seguinte e todo mundo lê (seus amigos, sua família e seus pais). Tudo o que você for fazer hoje, pense que pode sair na capa do jornal no dia seguinte. Se você estiver confortável com isso siga em frente… No mercado financeiro e na Constellation obviamente confiança é o principal ativo. É um mercado que lida muito com gente. Então gente é o principal ativo e confiança também é outro principal ativo. Na Constellation ética é fundamental e inegociável!

 

Quais os maiores pilares da Constellation?

O maior pilar da Constellation é a ética no trato interno e externo. As pessoas às vezes confundem: “se é ético tem que ser ético com clientes ou com relações com o Governo”; mas não é só isso. Tem que ser ético na maneira que você trata as pessoas que trabalham na sua companhia, os seus sócios e/ou seus fornecedores, já que não adianta você só ser ético com seus clientes, mas tratar os fornecedores de uma maneira não ética. Ética é um dos principais pilares. O segundo pilar é a excelência. Tudo o que a gente faz é com excelência. E no Brasil quando você faz as coisas com carinho e com excelência você se destaca bastante. O terceiro pilar é o cliente sempre na frente. A gente vive pelo cliente. Quem paga nossa conta é o cliente. Quem garante o sustento e a sustentabilidade da companhia a longo prazo são os nossos clientes. Vivemos para os nossos clientes. Então é ética acima de tudo. Ética não só em lidar com entes externos, mas também com a ética interna obviamente. Resumindo: a maneira que você lida com as coisas dentro da companhia e com as pessoas dentro da companhia, excelência no que faz, cliente acima de tudo e pensamento de longo prazo. Quando você pensa em curto prazo você acaba tomando decisões equivocadas.

 

O que é fundamental para uma gestora de fundos no século XXI?

Acho que uma coisa que mudou muito foi o empoderamento do cliente (isso em todos os segmentos). Como as barreiras de entrada diminuíram muito, o cliente tem muito mais alternativas. Antigamente você tinha poucas alternativas e acabava tendo que se contentar e às vezes era maltratado pelas empresas. Hoje em dia você tem muito mais alternativas. Para uma gestora ter sucesso ela precisa ser transparente, percebida como super ética e transparente também pelos clientes e obviamente ter uma performance distintiva. As pessoas estão dispostas a pagar mais do que você paga quando você investe em um fundo, já que você poderia investir direto, porque elas acreditam que a longo prazo, você terá uma performance melhor se elas mesmas fizessem aquela gestão do dinheiro. Se você não performar bem… e para performar bem você tem que ter uma estratégia de longo prazo, um processo de investimentos claro com excelência, ter um time super bem preparado, trabalhador, disposto a ir à “milha extra” e estável. Gerir uma empresa hoje (uma gestora ou qualquer empresa), é muito mais complexo porque você tem que lhe dar com diversas dimensões.

 

Como a transformação digital influenciou o mercado de ações?

A transformação digital tem influenciado o mercado de ações. É uma sensação amargo-doce. É amarga porque você tem muito mais disrupção. Todas as empresas de um grau maior ou menor, estão sendo potencialmente disruptadas pela tecnologia. Já não tem mais aquela empresa que você dorme tranquilo, pois, todas as empresas devem estar bastante vigilantes em relação a disrupção através do mundo digital. Do ponto de vista do mercado em si, ela também diminuiu muito a barreira de entrada às gestoras menores, distribuidoras ou grandes corretoras como XP, BTG Digital… os bancos digitais como Nubank, Neon e outros, também aumentaram muito a disponibilidade e as facilidades de acesso de investidores ao mercado de ações. A transformação digital traz um desafio: todas as empresas que investimos têm um risco de disrupção agora, mas, por outro lado, a transformação digital melhorou o acesso principalmente das pessoas físicas ao mercado de ações.
O experiente administrador

Ética: O experiente administrador Florian Bartunek (Foto: Marcus Steinmeyer/AP)

 

E como essa transformação tem influenciado a Constellation?

Nós estamos com a empresa muito mais presente nas redes sociais. Estamos super animados com as plataformas digitais de distribuição que têm feito um trabalho muito interessante de aumentar o acesso junto aos investidores, principalmente pessoas físicas ao mercado. Elas têm um papel educativo também. Os influenciadores digitais têm um papel muito interessante de educar principalmente as pessoas físicas. Dentro da Constellation a gente tem usado muito as ferramentas digitais na nossa análise de companhias. Antigamente você tinha que ir em shopping centers para contar sacolas e hoje você consegue ver tudo pela internet. Antigamente você tinha que ligar para as companhias para pegar os preços e hoje com robôs na internet você consegue levantar os preços dos produtos e ver o desempenho competitivo e a dinâmica competitiva das companhias.

A questão digital é um “blessing and a curse”. Ela é uma faca que pode ser usada tanto para o bem como para o mal. Por um lado as barreiras de entrada caíram, sendo mais fácil abrir uma gestora hoje em dia (a maioria das corretoras se distribui pelas plataformas digitais). Através da tecnologia você tem muito mais acesso às informações. Eu me lembro que há 30 anos eu tinha que ir na CVM (Companhia de Valores Mobiliários) para pegar um balanço de uma companhia para tirar um xerox, já que o balanço ficava guardado na pasta da companhia na CVM. Hoje você tem acesso online e instantâneo dos resultados das companhias. A gente recebia relatório de análises dos bancos estrangeiros que chegavam com um mês de atraso pelos Correios e impresso. Hoje você tem acesso instantâneo. Esse acesso instantâneo também democratizou muito a informação. O mercado está um pouco mais competitivo, mas também está mais acessível.

 

Quando a subjetividade pode atrapalhar um negócio como o seu?

A subjetividade está presente em tudo na vida e é o que torna a vida bela. Nosso negócio não é um negócio cartesiano matemático. Obviamente quando você vai construir um viaduto, tem muita pouca subjetividade ali. Se você for um engenheiro estrutural, tem os cálculos que você tem que fazer e tem muita pouca subjetividade. No nosso caso tem muita subjetividade, e é o que torna o negócio bonito também. Por exemplo, se você pega a arte só tem praticamente subjetividade, então torna a atividade muito mais interessante e muito mais bonita, surgindo coisas geniais. No nosso caso a subjetividade está muito em entender (já que nós somos investidores de ações de empresas), se a empresa vai bem ou vai mal a longo prazo, e analisar a capacidade daquela equipe de gestão de entregar o que promete… Então, tem uma questão de intuição/subjetividade na análise das companhias que é muito grande, mas é uma coisa muito bonita, pois, é o que faz com que o nosso negócio se diferencie um pouco de outros negócios que podem ser feitos por robôs ou por máquinas.

 

Como ter uma compreensão do ambiente empresarial com assertividade?

Para ter uma boa compreensão do ambiente empresarial… Eu tive um professor de arte e lhe perguntei assim: “Professor, como é que consigo distinguir um quadro ou uma obra de arte que vale milhões de dólares de uma obra que não vale nada? São todas muito parecidas. Como que o senhor olha para o quadro e sabe que ele é especial e que um outro não é tão especial?”. Ele me respondeu: “Você tem que ver muita arte para começar a treinar o seu olho e aí depois de ver muito você vai começar a saber o que é melhor e o que é pior”. Para você entender um bom negócio, entender um ambiente empresarial, tem que ler muito e conhecer muito as companhias. Tem que ler os balanços, entender como as companhias ganham dinheiro e conversar com empresários. Para entender o ambiente macroeconômico do momento, acho que é um pouco de leitura (obviamente dos jornais), mas muito falar com empresários e falar com economistas (principalmente com empresários). Mais com empresários, porque eles estão com a barriga no balcão, gastando sola de sapato no dia a dia, falando com a clientela e sentindo a temperatura da economia. Então, é leitura, gastar muita sola de sapato e networking para entender como está o dia a dia das empresas e como é que a economia real está funcionando.

 

O que é fundamental para um investidor que queira obter o mesmo grau de sucesso que você obteve?

Eu acho que sucesso no mercado financeiro ou de investimentos, é muito parecido com qualquer outra atividade e requer persistência, bastante estudo e treinamento. Aquele jogador de tênis de final semana ou que faz duas aulas particulares durante a semana e que joga no final de semana, nunca vai chegar no nível de um Federer [no caso o tenista suíço Roger Federer, considerado o maior tenista de todos os tempos]. O Federer deve treinar umas 6, 7 horas por dia e provavelmente começou muito jovem. Eu acredito que a primeira coisa para se ter sucesso é estudar bastante, ter paciência e persistência. Em segundo, o mercado tem uma questão de “perfil emocional”. Você tem que ter um perfil emocional adequado para o mercado, porque o mercado tem muita volatilidade. Muitos dias você vai muito bem, outros dias você perde dinheiro, vai mal… então você tem que ter uma capacidade, uma personalidade de aguentar essa “montanha-russa das emoções”.

Acho que tem que estudar muito, achar um processo de investimento que seja adequado a sua personalidade, ter essa personalidade adequada para o mercado, porque você vai indubitavelmente perder dinheiro com o universo de ações, porque mesmo que a ação suba ela vai cair em algum momento, por alguma crise ou por alguma coisa. Não significa que ela não vai voltar a subir, mas em algum momento você vai ter uma perda, nem que seja uma perda apenas no papel. É nesse momento que você tem que ter a coragem e a persistência emocional para não vender as ações. Também é muito importante ter o tamanho dos seus investimentos adequados, porque se você investe um percentual muito maior do que você deveria, qualquer perda passa a ser muito grande e você acaba ficando muito fragilizado emocionalmente. Repetindo: estudo, estude, ache o processo que se adeque a você, persista e dedique tempo. Novamente: não adianta gastar uma hora por semana, pois, você vai ter um desempenho pior do que quem gasta dez, e obviamente um desempenho pior do que quem gasta cinquenta. Não adianta estudar e gastar tempo de uma maneira ineficiente e ineficaz. A grosso modo quem mais estuda e quem mais se dedica tem um desempenho melhor.

Um vídeo do administrador Florian Bartunek

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Eder Fonseca

 
Diretor executivo e editor do Panorama Mercantil.